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O PASSADO MORDE

Eu tinha uma crença quase rígida: quando um ciclo se encerra, as pessoas não se reencontram. Como se houvesse uma ordem silenciosa do universo dizendo “acabou”, e pronto. Sem ecos, sem retornos, sem desvios.

 

Hoje isso se rompeu.

 

Encontrei meu primeiro amor na academia. Assim, sem preparação, sem aviso — como se o passado tivesse atravessado o tempo e me tocado no ombro.

 

Nós fomos adolescentes. Eu tinha quatorze, ele dezoito. Eu era toda abertura, sem linguagem para o que sentia. Chamei de amor aquilo que me atravessava, sem saber nomear a dor que vinha junto. Sofri como se fosse definitivo, como se aquele fim fosse também o fim de mim. E, naquele momento, foi.

 

Depois vieram outros. Outras paixões, outros corpos, outras despedidas. Aprendi — ou pensei ter aprendido — que o amor machuca sempre no início do fim, mas que a dor cede, inevitavelmente. Como um luto necessário, quase pedagógico. A gente sobrevive, sempre sobrevive. E isso, de algum modo, nos endurece.

 

Mas agora, aos vinte e seis, me vejo novamente ali — não no mesmo lugar, mas no mesmo abismo. Sete meses de uma dor que não se acomoda, que não aceita a passagem do tempo, que insiste em permanecer como se fosse inaugural. E isso me confunde. Porque eu já soube sair disso antes. Eu já conheço o caminho de volta. Então por que ainda dói como se eu não soubesse?

 

Talvez a gente nunca aprenda de fato. Talvez o corpo não memorize a superação, só o impacto.

 

Existe essa ideia — quase romântica — de “morrer de amor”. Mas não. Ninguém morre. A gente se aproxima perigosamente, chega muito perto de um fim que não chega. E continua. É isso que há de mais cruel: a continuidade. A vida não cessa porque alguém deixou de nos amar. Ela prossegue — e, por um tempo, prossegue doendo.

 

A Esther de vinte e seis não ama como a de quatorze. Não poderia. Há uma lucidez agora, uma espécie de defesa quase automática. Eu não toleraria o que tolerei. Não ficaria. Não insistiria. Talvez nem começasse. Talvez eu sequer desse ao passado a chance de se repetir.

 

E ainda assim, a vida insiste em dobrar sobre si mesma.

 

Porque o que me atravessou não foi o encontro na academia.

 

Foi outro.

 

Foi ele, naquela sexta-feira, na balada, no centro de São Paulo — o que ainda me dói.

 

Talvez não tenha significado nada. Talvez tenha sido só isso: um encontro vazio, uma coincidência banal. Mas há algo em mim — ferido, insistente — que se recusa a aceitar o vazio como resposta.

 

Porque quando se está assim, atravessada pela dor, qualquer possibilidade vira abrigo. Qualquer gesto mínimo se expande. E eu, mesmo sabendo de tudo que já aprendi, ainda me pego tentando dar sentido ao que talvez não tenha nenhum.

 

Talvez seja isso o mais honesto: não a certeza, mas essa necessidade quase desesperada de acreditar que ainda não acabou. 

 23 de Abril de 2026

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