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RUÍNA

Sempre acreditei que é na dor que a arte se constrói. Mas, ironicamente, desde que você foi embora e deixou esse buraco latejante no meu peito, eu não consigo mais escrever. É como se até as palavras tivessem desistido de mim.

 

Tudo foi tão abrupto, tão brutal, que talvez eu ainda nem tenha compreendido a dimensão da sua ausência. Eu choro dia após dia, tentando encontrar alguma lógica na forma fria com que você virou as costas. Mas não encontro nada.

 

Minha garganta fecha quando tento falar de você. Meus olhos transbordam, minhas mãos tremem, minhas pernas não param, e meu corpo inteiro é tomado por uma ansiedade que me devora por dentro. Falar de você ainda é como cutucar uma ferida aberta.

Arde, sangra, queima.

 

E, no meio desse caos, eu me pergunto se você algum dia foi a pessoa em quem eu confiei o suficiente para me despir por completo. Porque agora tudo o que eu vejo é uma máscara caída aos meus pés, revelando um ser pálido, sem brilho, sem verdade. Acho que eu inventei você. Acho que inventei o seu amor. E dói admitir isso.

 

Prefiro acreditar nessa ilusão desfeita, porque aqui dentro tudo continua confuso demais. Meus sentimentos viraram um emaranhado sufocante, um nó apertado que não se solta, que me prende, que me arrasta.

 

E, no fim, tudo o que sobrou foi esse silêncio ensurdecedor. Um silêncio pesado, quase sólido. O mais cruel é lembrar que, há poucos meses, eu conseguia enxergar um futuro com você - um nós. Hoje, só restou essa ausência que corrói, essa falta que me acompanha como sombra.

 

A gente virou isso: carne aberta, exposta ao tempo. Um sentimento que apodreceu antes mesmo de florescer. E eu, estúpida, ainda tateio no escuro em busca de algo que só existiu na minha cabeça.

2 de Janeiro de 2026

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