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PREDADORA

Ele dançava como se o próprio ar o desejasse. Havia luz em seu corpo — não uma luz mansa, mas uma claridade quente que pulsava sob a pele. Eu o observava com uma fome silenciosa, uma vontade quase indomável de tocá-lo, de interromper aquele movimento lento e hipnótico. Mas sabia: se meus dedos o alcançassem, ele pararia. E eu não queria que nada cessasse. Então fiquei ali, imóvel, deixando que fosse a luz do quarto a acariciá-lo, a deslizar por seus ombros, pelo contorno das suas costas, pelo ritmo preguiçoso de seus quadris.

 

Havia algo cruel na minha contemplação. Senti-me predadora, à espreita, sustentando o desejo como quem segura a respiração antes do salto. Eu o devorava com os olhos.

 

Quando ele se aproximou, o mundo pareceu encolher. Seu corpo encontrou o meu com uma naturalidade insolente, e ele me roubou um beijo — úmido, lento, profundo. Beijei de volta como se já soubesse o gosto dele de cor. Nossos lábios se reconheceram antes de qualquer palavra. E quando nos olhamos, houve um instante suspenso — seu olhar percorreu minha boca, meu pescoço, meus seios, e eu quase me desfiz ali mesmo, tocada apenas pela intensidade daquilo que ele prometia sem dizer.

 

Não era para ser um conto erótico. Mas as lembranças têm carne própria. Elas respiram, suam, ardem. E quando voltam, voltam com o peso do corpo inteiro.

 

Só consigo me lembrar da pele dele sob a luz quente do quarto, do brilho do suor misturado ao meu, das nossas pernas entrelaçadas como se quisessem fundir ossos e vontades. Lembro do cheiro — denso, íntimo — da maneira como nossos corpos se ajustavam com precisão, como se tivessem sido ensaiados pelo destino. Eu me sentia dissolver, perder contorno, existir apenas no espaço exato onde ele me tocava.

 

Duvidei que um dia encontraria alguém que soubesse me ler assim — não as palavras, mas os silêncios entre elas. Alguém que entendesse o meu ritmo, a minha fome, o meu cansaço. Talvez o universo tenha decidido me entregar descanso em forma de incêndio.

 

Que você atravesse oceanos e venha ao meu encontro em Paris. Que você insista em ficar, mesmo quando disserem que é imprudente, mesmo quando o mundo pesar. Que você permaneça.

 

Naquela noite, depois de nos amarmos entre lençóis ainda quentes, você cortou uma mecha do meu cabelo e colocou nas minhas mãos um pedaço do seu. Um gesto antigo, quase selvagem. Fizemos nosso juramento sem precisar erguer a voz: não deixaremos que o tempo nos domestique. Não permitiremos que o cotidiano apague nossa vontade de devorar, de arder, de permanecer acesos um no outro.

 12 de Fevereiro de 2026

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