NOSSA ÚLTIMA MENTIRA
Lembro de deitar no seu peito naquela noite fria em São Paulo, meses depois do nosso fim, naquele quarto pequeno e gelado onde inventamos, com a convicção infantil de quem ainda não sabe perder, a promessa de um reencontro.
Dissemos que nos encontraríamos de novo quando fôssemos mais maduros.
Quando você voltasse da Europa.
Quando tivesse terminado esse longo e silencioso encontro consigo mesmo.
Hoje penso que aquela foi talvez a mentira mais delicada — e mais cruel — que contamos um ao outro.
Entre tantas, aquela era a única que ainda carregava alguma ternura.
Foi a última vez que te vi.
Nos destruímos de maneiras difíceis de nomear. Havia algo de corrosivo entre nós, uma violência que não precisava de gritos para existir. Nos machucamos até restar apenas fadiga. Como dois corpos insistindo em tocar uma ferida aberta até ela já não distinguir mais pele de sangue.
Não sobrou nada intacto.
E, ainda assim, é curioso o funcionamento da memória.
Ela é desonesta.
No meio de toda ruína, o que retorna não é o pior.
Às vezes sua risada ainda atravessa meus pensamentos como se viesse de um cômodo vizinho. Às vezes sinto seu cheiro em lugares aleatórios, como se alguma parte sua tivesse contaminado discretamente o mundo.
Não sinto mais sua falta. Essa ausência já não me visita. Não há em mim desejo de retorno, nem saudade das nossas mãos, nem nostalgia suficiente para romantizar o que fomos.
Mas você ainda existe em algum lugar dentro de mim.
Como se tivesse deixado mãos próprias e, com elas, segurasse para sempre uma pequena gaveta no meu peito.
Você foi a única pessoa de quem apaguei tudo.
Todas as fotos, todas as mensagens, qualquer vestígio possível de que um dia dividimos a mesma realidade. Como se deletar fosse também uma tentativa tardia de negar que nossos corpos um dia aprenderam a linguagem um do outro.
Mesmo assim, a memória encontra frestas.
E por elas ainda entra a lembrança de como a vida, apesar de tudo, às vezes era estranhamente engraçada ao seu lado.
Sou outra pessoa agora.
Tão outra que às vezes penso que, se tivesse te conhecido sendo quem sou hoje, jamais teríamos acontecido.
Talvez maturidade seja também isso: tornar-se incompatível com certos incêndios que, quando mais jovem, pareciam irresistíveis.
Ela nos salva e, ao mesmo tempo, nos priva.
Nos impede de repetir aquilo que quase nos destruiu, mas também nos rouba a imprudência necessária para viver certos amores até o fim.
A promessa feita naquele quarto permanecerá onde pertence: no passado.
Duas pessoas deitadas no escuro, tentando chamar de futuro aquilo que já tinha cheiro de despedida.
Dois corpos exaustos tentando amar através da própria devastação.
17 de Maio de 2026