LATEJO
Dezembro de 2025 — um fragmento de memória.
Quando penso em você, é como se uma força silenciosa me arrancasse do presente e me devolvesse exatamente ao instante em que nossos corpos se reconheceram pela primeira vez. Fico me perguntando se é ousadia revisitar nossa intimidade assim, mas a verdade é que certas memórias insistem em permanecer vivas, como se tivessem cheiro, temperatura e pulso.
Ainda sinto o rastro da sua presença quando fecho os olhos, um perfume que não é bem cheiro, é lembrança. Uma sensação que se espalha pelo peito e me leva de volta ao momento em que te senti tão perto que o mundo pareceu caber dentro de um quarto.
Às vezes, me pergunto se faz bem reabrir essas portas justo agora que tudo começa, aos poucos, a cicatrizar. Mas esse é o meu dilema eterno: começo por um lado, me perco por dentro, e quando percebo já estou presa em memórias que se derramam sem ordem, como se tivessem vontade própria.
É que a nossa história foi um abalo, um começo tão súbito quanto o fim. Até hoje me pego pensando se o destino realmente tem essa crueldade de afastar duas vidas que se reconheceram tão rápido. Se ele pode mesmo prender alguém a um amor que agora só existe por dentro, escondido, latejando.
E de noite, quando agradeço pelo que vivemos, agradeço por você, por ter sido um amor que me virou ao avesso, mesmo que por pouco tempo.
E depois de agradecer, peço em silêncio que o destino, por mais duro que seja, ainda tenha um pouco de piedade.
17 de Fevereiro de 2026