HEMORRAGIA CONSENTIDA
Você me magoa antes mesmo de tocar. Sinto a violência como um rumor nos ossos, como água morna escorrendo pelo avesso dos dedos, como o tremor de uma linha de cabelo que sabe o nome do perigo.
Fugir é fraqueza? Talvez.
Ou talvez seja um ato de covardia vestido de preservação.
Coloco na balança o que sou e o que poderia ser, e as regras dessa balança são confusas, inventadas por quem ainda não sangrou. O futuro acena com um rosto que pode me abraçar ou me condenar; eu me pergunto se esse rosto incorpóreo me agradecerá por ter partido sem marcas.
E no centro da equação, uma vontade absurda: te querer tanto que aceitarei a hemorragia como companhia. Se você me quisesse do mesmo modo, a ferida seria consentida, um rito a dois, e o sangue um testemunho.
16 de Novembro de 2025