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GUERRA ÍNTIMA

A minha paz não depende da mudança de ninguém além de mim.
Mas mudar é como atravessar um labirinto sem saída aparente.
Tenho tentado, quase como quem reza, alterar meus hábitos, dar um passo fora do padrão, rasgar os roteiros antigos. Mas certas coisas me prendem como correntes invisíveis; são vícios de alma, não apenas de gesto.

 

Talvez a Esther de antes tenha aprendido a sobreviver se alimentando do que faltava, se acostumando à ausência, se viciando naquilo

que nunca se sustentava.
E agora, mesmo quando desejo a abundância,

o coração insiste em procurar o vazio familiar.

 

Queria poder desligar a mente, desligar o corpo, como quem desliga uma máquina velha. Reiniciar do zero. Esquecer os traumas

como poeira varrida para debaixo da noite.
Mas não é tão simples. O passado pulsa nas minhas

veias como uma sombra que respira em silêncio.

 

É uma guerra dentro de mim, a parte que deseja renascer e a parte que insiste em morrer devagar. Luto contra espelhos que refletem versões quebradas de quem já fui. Luto contra o eco de vozes que não se calam. Luto contra mim mesma, como se fosse meu próprio inimigo íntimo.

 

E talvez a verdadeira mudança não seja me desconectar do passado, mas aceitar que ele sempre vai estar aqui, dissolvido nas minhas cicatrizes, inscrito no meu silêncio.
Talvez mudar seja aprender a caminhar mesmo carregando fantasmas.

25 de Setembro de 2025

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