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A MULHER NO ESPELHO

O que realmente é importante?

Quando me olho no espelho, não vejo só um rosto. Vejo o cansaço acumulado, as linhas que o tempo desenhou sem pedir permissão, manchas, marcas, pequenas imperfeições que se agigantam sob o meu próprio julgamento. Fico ali, parada, encarando

meu reflexo por minutos que parecem horas, caçando

defeitos que ninguém mais vê, mas que, pra mim, gritam.

 

Sempre fui firme em dizer que não me importava com o olhar dos outros. Sempre repeti que envelhecer não me assustava, que eu queria ser mais do que aparência. Mas a verdade é mais feia, mais crua: aos 26 anos, já sinto o gosto amargo de estar “depois do auge”. Como se a melhor versão de mim já tivesse ficado para trás. Como se a juventude estivesse escorrendo pelos meus dedos e eu não tivesse segurado com força suficiente.

 

Eu me pego pensando se ainda vão me olhar com brilho nos olhos.
Se ainda vão me achar bonita ao acordar, com o rosto inchado de sono,

sem maquiagem, sem filtros, sem disfarces.
Se ainda serei bonita de cabelo molhado, despenteado,

caindo do jeito que quer.
Se ainda serei bonita sorrindo largo demais, mostrando

a gengiva, rindo sem pose, sem ângulo, sem controle.

 

Cheguei na idade da comparação.
A idade em que a beleza deixa de ser descoberta e passa a ser medida.
Em que cada nova mulher mais jovem parece uma substituta em potencial.
Em que eu olho pra mim e penso: “nunca mais vou ser tão bonita quanto fui”, e “talvez eu nunca tenha sido suficiente nem naquela época”.

 

Dizem que beleza não é tudo.
Mas o mundo inteiro se organiza como se fosse.

 

Pessoas bonitas são ouvidas com mais paciência.
São desejadas com mais facilidade.
São perdoadas com mais rapidez.
Têm portas abertas que outras nem chegam a encontrar.

 

E não, eu não tenho 40, 50 ou 60 anos.
Eu tenho 26.
Vinte e seis, e já me sinto atrasada

numa corrida que eu nunca pedi pra correr.

 

O mais cruel é que a sabotagem vem de dentro, mas não

nasceu lá. Ela foi plantada. Regada. Aplaudida.
A sociedade ensinou mulheres a se vigiarem como inimigas, a se analisarem como produtos, a se reduzirem a um prazo de validade invisível. Temos que ser sempre lindas, sempre jovens, sempre desejáveis, e, de preferência, sem rugas e sem histórias. Porque uma mulher com marcas é uma mulher que viveu. E uma mulher que viveu pensa, questiona, ocupa

espaço, não aceita migalhas.

 

Uma mulher vivida não se cala.
E talvez seja isso que mais assuste o mundo.

 

Mesmo assim, às vezes eu me encolho. Me deixo esmagar pela pressão, pelos padrões, pela crueldade silenciosa de um espelho que nunca diz “você é suficiente”, só pergunta, dia após dia:
“E quando sua beleza acabar, o que vai sobrar de você?”

 

E o que mais dói…
é que eu ainda estou tentando descobrir a resposta.

 24 de Janeiro de 2026

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