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ENTRE NÓS

Eu ainda volto, às vezes, para aquele dia em que eu parti. O silêncio no quarto era vivo, ele respirava entre nós dois. Dois corpos que se agarravam como último abrigo, sabendo que precisavam soltar, mas adiando até o limite. A vida não perguntou. Ela arrancou. O ar tinha o cheiro denso do que fomos: saudade prematura, sexo ainda grudado na pele, lágrimas que não sabiam cair, e o teu cheiro que insistiu em morar na minha pele por dias, como se ainda quisesse me acompanhar.

 

Eu não disse nada. O nó na garganta era maior que eu. Mas você respondeu ao meu silêncio. Você disse que tinha entendido meu olhar. Disse, com a voz baixa, que a nossa beleza sempre foi essa, a capacidade de doer juntos sem precisar explicar.

 

Eu não aceito que tenha sido ali que tudo se partiu para sempre.

Porque naquele dia, mesmo indo embora, eu sentia um começo nascendo no meio do fim. Talvez fosse um começo condenado, mas ainda assim era um começo. Só nunca consegui entender quando foi que nos desenlaçamos de vez. Tínhamos o mundo na palma das mãos e, quando percebi, restava apenas o vazio. E dessa vez o vazio veio sozinho. Sem teu cheiro impregnado na minha pele, sem o peso do teu corpo me lembrando

que eu não estava só.

 

E na distância, quando a gente virou estranho um para o outro, eu me perguntava se ainda era você. Porque já não parecia. Não houve cuidado. Não houve transição. Apenas uma ruptura seca. Um corte frio demais para quem já esteve misturado na minha pele.

 

Mas eu não escrevo para alimentar a dor, embora ela ainda pulse dentro do meu peito. Eu escrevo porque, apesar de tudo, eu te amei. Nem que tenha sido por um instante torto no tempo. Eu te amei.

 

E quando estávamos juntos, era como se o mundo deixasse de existir. Só sobrava a nossa bolha de respiração e pele, a nossa história dita com o corpo e não com palavras:

 

eu

e você.

 6 de Janeiro de 2026

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