DOCE MENINA
Tenho escrito mais para o meu livro.
Parece grande demais dizer isso em voz alta, escrever um livro, mas eu quero. Quero segurar meu próprio nome na capa. Quero virar página por página da minha história contada por mim, escrita pelas minhas mãos. Quero me ler.
E, enquanto escrevo, eu volto.
Volto para a menina que fui.
Tenho escrito também paralelamente ao livro, textos soltos, confissões, fragmentos que talvez nunca se tornem livro nenhum. Mas são o que me atravessa agora. E escrevendo, percebi algo que nunca tinha percebido antes.
Eu nunca fui doce.
Lembro da minha irmã mais nova. Da doçura dela. Ela era macia nas bordas, leve na voz, delicada no gesto. Eu não era assim. Nunca fui. Talvez porque eu não tenha sido, ela tenha tido mais espaço para ser. Alguém precisava endurecer primeiro.
O que eu lembro é da menina pequena, a menor da turma, escandalosa, engraçada, atrapalhada, boa aluna, madura pra idade. Mas não me vem à memória nenhum instante em que eu tenha sido doce. Nenhuma cena em que eu tenha sido frágil sem precisar me defender.
Tive que crescer cedo demais.
Meus pais se divorciaram quando eu tinha seis anos. Aos poucos fui entendendo que a infância não era um lugar onde se pudesse ficar por muito tempo. Precisei ajudar em casa, cuidar dos meus irmãos, trabalhar cedo. Crescer antes da hora não foi escolha, foi necessidade.
E eu cresci.
Aos treze, trabalhava.
Aos quatorze, perdi a virgindade, como se o corpo
também estivesse com pressa.
Aos dezesseis, morava sozinha.
Aos dezenove, me casei.
Aos vinte e dois, me divorciei.
Agora, aos vinte e seis, percebo que não sobrou
tempo para ser doce.
Não houve intervalo. Não houve descanso. Não houve aquela lentidão própria de quem ainda pode errar sem pagar caro demais.
E a falta disso me atravessa na vida adulta.
A falta de ter sido menina.
A falta de ter sido cuidada sem precisar cuidar.
A falta de ter sido doce sem que isso fosse confundido com fraqueza.
A gente pisa na própria infância a vida inteira.
Carrega ela como uma casa mal acabada nas costas.
Talvez essa percepção seja o começo.
Talvez seja agora o momento de devolver tempo àquela menina.
Permitir doçura sem culpa.
Aprender, mesmo tarde, a ser macia.
Talvez ainda haja tempo.
14 de Fevereiro de 2026