DEPOIS DO AMOR
Eu estava lendo meu terceiro livro do ano, Eros, doce-amargo, da Anne Carson, quando alguns sons me puxaram de volta. Sem pensar, peguei os fones e coloquei aquela sua playlist de música clássica.
E então entendi: certas coisas não morrem quando o amor morre.
Nós ouvíamos essas músicas descendo para
a praia no meio da semana. O silêncio no carro não era vazio, era casa. Era paz. Era um jeito de existir ao lado de alguém sem precisar se explicar.
Na época, eu não soube dar nome a quase nada
do que sentia. Eu era menina, e meninas
sobrevivem primeiro, entendem depois.
Hoje, mais madura, reconheço: nos últimos anos do
nosso amor, a gente finalmente encontrou a paz que
passou tanto tempo procurando um no outro.
Eu te agradeci muitas vezes. Sempre que pude.
Mas ainda assim ficou algo sem registro, como se gratidão também precisasse de um lugar físico para morar.
Então deixo aqui, nessa sexta-feira qualquer
de janeiro de 2026, nesse texto imperfeito, mas honesto:
eu te amo.
Não é mais amor de querer ficar.
É amor de reconhecer.
De honrar.
De carregar com carinho tudo o que foi luz.
Ainda existe muito de você em mim. Às vezes ainda me misturo às memórias, às lições, aos silêncios que você me ensinou a não temer.
E isso não dói.
Isso vive.
30 de Janeiro de 2026