top of page
DEPOIS DA ÚLTIMA MENTIRA

Houve um tempo em que eu acreditava que o pior que duas pessoas podiam fazer uma à outra era deixar de se amar.

 

Hoje acho que é outra coisa.

 

É continuar existindo uma na memória da outra depois que tudo acabou.

 

Não como saudade. Nem como desejo. Mas como matéria.

 

Uma espécie de sedimento.

 

Algo que fica no fundo e altera discretamente a cor da água.

 

Meses atrás ele voltou a me procurar e eu fui dura. Não porque já não existisse afeto, mas porque existia história. E a história, às vezes, pesa mais do que o amor. Há relações que terminam e deixam apenas ausência; outras deixam um inventário inteiro: frases, culpas, versões de si mesmo que gostaríamos de não ter conhecido.

 

Eu carregava a nossa como quem carrega um objeto quebrado dentro da bolsa. Já não servia para nada, mas também não conseguia jogar fora.

 

Então escrevi.

 

Não para reabrir. Talvez nem para fechar. Escrevi porque me parecia insuportável que o último estado de duas pessoas que um dia se amaram fosse a deformação.

 

Porque existe algo muito triste em sobreviver apenas na pior lembrança de alguém.

 

Ele respondeu dizendo que também tinha tentado fazer as pazes com a história.

 

Fazer as pazes com a história.

 

Fiquei parada nessa frase.

 

Porque ela pressupõe uma guerra anterior.

 

E nós tivemos uma.

 

Não uma guerra de gritos. As guerras mais longas acontecem em silêncio. São feitas de versões incompatíveis do passado, de pequenas defesas internas, da necessidade quase infantil de decidir quem feriu mais.

 

Depois de certo tempo, a pergunta muda.

 

Já não é quem sofreu mais?

 

É o que fazemos com isso agora?

 

Ele escreveu que as consequências emocionais tinham sido reais.

 

Não o amor.

 

As consequências.

 

Achei isso devastador.

 

Porque o amor sempre parece abstrato quando acaba. O que fica concreto é o resto: os deslocamentos, as mudanças imperceptíveis, as coisas que passamos a fazer ou deixar de fazer sem perceber que nasceram ali.

 

Talvez amar alguém seja permitir que essa pessoa reorganize secretamente a arquitetura da sua vida.

 

Mesmo indo embora.

 

Ele escreveu que se sentiu amado.

 

E eu pensei no desperdício silencioso que existe nas histórias que foram verdadeiras.

 

Não as grandes tragédias. Nem os amores impossíveis.

 

Os amores possíveis.

 

Os que existiram.

 

Os que chegaram a tocar o mundo.

 

Os que tinham corpo, rotina, consequências.

 

Os que poderiam ter sido uma vida e acabaram se tornando uma lembrança.

 

Não chorei pela perda.

 

A perda já era antiga.

 

Chorei pela estranheza de perceber que duas pessoas podem sair uma da vida da outra e, ainda assim, permanecerem responsáveis por partes inteiras do que o outro se tornou.

 

No fim ele escreveu algo sobre amar melhor nas próximas.

 

Não me pareceu despedida.

 

Também não me pareceu esperança.

 

Pareceu maturidade, que é uma coisa muito menos bonita do que imaginamos.

 

Maturidade é descobrir que algumas histórias não pedem retorno nem esquecimento.

 

Pedem lugar.

 

Só isso.

 

Um lugar pequeno, silencioso, sem heroísmo.

 

Como os objetos que deixamos em uma gaveta porque já não usamos, mas também não conseguimos perder.

 

E então, um dia, abrimos a gaveta e eles já não doem.

 

Só existem.

 20 de Maio de 2026

bottom of page