FINITUDE
Sempre precisei saber os porquês das coisas.
Como se a vida escondesse alguma frase atrás da cortina e eu tivesse nascido com a obrigação de encontrá-la.
Na adolescência, eu me cortava por dentro tentando compreender o instante exato em que alguém deixava de me amar. Existia sempre um segundo invisível — um desvio quase imperceptível da alma — em que o amor começava a morrer dentro do outro. E eu perseguia esse cadáver antes mesmo do enterro.
Enquanto não encontrasse todas as razões, meu corpo permanecia aberto.
Uma ferida pensa muito antes de cicatrizar.
Depois conheci o tarot.
E troquei o coração humano pelas cartas.
Passei a me consultar como quem encosta o ouvido numa porta interditada. Semana após semana. Sem intervalo. Sem silêncio suficiente para que a vida reorganizasse seus próprios sinais. Eu queria antecipar a dor, decifrar o invisível, agarrar o destino pelo pescoço antes que ele me surpreendesse.
Mas nenhuma resposta dura muito dentro de alguém consumido pela pergunta.
Mais tarde vieram os orixás.
E eu pensei: agora encontrei a margem.
Havia algo de antigo naquela fé. Algo que não precisava ser explicado para existir. Como o mar. Como o sangue. Como o luto. Pela primeira vez senti que talvez o mistério não fosse um erro a ser corrigido, mas uma língua que eu ainda não sabia falar.
Ainda assim, a morte continuava me observando de longe.
Não como ameaça.
Como fascínio.
Desde muito nova, existe em mim essa vertigem diante do fim. Não da morte dos outros — da minha. Da ideia de um dia eu atravessar a última porta e deixar meu nome vazio dentro dos quartos.
O que acontece com a consciência quando ela apaga?
Para onde vai o excesso de amor que uma vida inteira não conseguiu gastar?
E por que existimos com tanta fome, se tudo termina com as mãos vazias?
Passei anos rondando minha própria finitude.
Como quem caminha pela casa durante a madrugada tentando encontrar de onde vem um barulho antigo.
Mergulhei nisso como quem mergulha num rio escuro sem saber nadar, mas incapaz de permanecer na margem. Fiz perguntas que talvez nunca devessem ser feitas. Procurei sinais em sonhos, números, coincidências, silêncios. Às vezes eu sentia que o universo respirava muito perto do meu rosto. Outras vezes, apenas o vazio devolvia meu olhar.
E então aconteceu algo estranho.
Pela primeira vez, o mistério não me feriu.
Ele me acolheu.
Talvez porque eu esteja finalmente compreendendo que existem coisas que adoecem quando tentamos iluminá-las demais. Como certos bichos noturnos. Como algumas dores. Como a própria morte.
Hoje penso que viver não é decifrar.
É suportar o brilho e a ausência.
Talvez o entendimento verdadeiro não venha antes do fim.
Talvez ele seja o próprio fim abrindo os olhos dentro de nós.
A morte deixou de parecer uma inimiga.
Ela me parece, agora, uma continuação silenciosa da natureza.
A folha cai.
O mar recua.
O corpo cansa.
As estrelas explodem sozinhas há bilhões de anos e mesmo assim o céu continua belo.
Existe uma serenidade brutal nisso.
E talvez o que sempre tenha impedido meu peito de descansar seja justamente o excesso de vida em mim. Minha intensidade quase febril. Eu nunca soube tocar nada sem mergulhar inteiro. Amo em excesso, penso em excesso, sinto como quem atravessa incêndios descalça.
Talvez por isso a morte tenha se tornado minha pergunta favorita: porque só quem ama profundamente a vida é capaz de temer tanto o seu desaparecimento.
Mas existem limites para o pensamento humano.
A mente vai até certa margem — depois disso começa o escuro.
E hoje, pela primeira vez, o escuro não me parece vazio.
Sinto que o fim da minha jornada virá depois de uma longa elaboração interna. Como um desapego lento das coisas do mundo. Como alguém que fecha as janelas da casa ao entardecer sem tristeza, apenas porque a noite chegou.
A morte não será um castigo.
Será uma travessia.
Por isso não quero mais me diminuir para caber na vida dos outros. Não quero amputar minha luz para tranquilizar quem se incomoda com ela. Há uma selvageria sagrada em existir de acordo com a própria alma.
Nem tudo permanece.
Mas o amor permanece de algum modo estranho.
Nas pessoas que fomos.
Nos lugares onde deixamos calor.
Nas versões de alguém que só existiram porque um dia fomos amados.
E talvez isso baste.
Talvez a paz esteja justamente aqui:
não em compreender o mistério,
mas em parar de exigir que ele se explique.
29 de Maio de 2026