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AUTORIA DA PRÓPRIA QUEDA

A gente sempre procura um álibi. Alguma coisa fora de nós — uma causa, um nome, um acaso — para que a culpa não se sente inteira dentro do peito, com os dois pés no chão da consciência.

 

Nas últimas semanas me vi fazendo isso. Procurando o culpado. Procurando uma explicação que me poupasse de mim mesma. Como se houvesse algo externo que tivesse me empurrado, me conduzido, me absolvido. Mas não havia. E isso é o mais difícil de engolir: fui eu.

 

Fui eu que deixei o sentimento nascer.

Fui eu que permaneci.

Fui eu que rompi.

 

E depois, ainda eu: a que adiou o próprio sonho. A que colocou o desejo em uma caixinha ao lado da cama, como quem promete a si mesma um futuro mais tarde — esse “mais tarde” sempre um pouco cruel, sempre um pouco incerto.

 

Talvez isso me acompanhe por um tempo. Não por muito. Só o suficiente para não me deixar esquecer.

 

Tenho trabalhado essas coisas na terapia — esse impulso quase automático de transferir a responsabilidade, de procurar um enredo que me inocente. Mas a verdade, nua e sem ornamento, insiste: sou eu quem segura as rédeas. Sou eu quem entra. Sou eu quem sai. Sou eu quem permanece tempo demais nos lugares que já deveriam ter sido partida.

 

E ainda assim, não há leveza na palavra “culpa” quando ela deixa de ser abstrata e vira corpo. Quando ela senta ao lado e respira no mesmo ritmo que você.

 

Decidi adiar meu sonho como quem encosta algo vivo em uma superfície segura, esperando que as feridas fechem antes do movimento seguinte. Eu precisava disso: parar de viver pelas beiradas, de evitar ruas, cheiros, sons, texturas que me atravessam como lâmina.

 

Coloquei um prazo para essa dor passar. E, de alguma forma estranha, escolhi vivê-la aqui, no Brasil, perto dos meus amigos — não porque nunca tenha estado só, mas porque pela primeira vez quis dividir o peso, ainda que sem palavras, ainda que só pela presença.

 

Não foi uma decisão fácil. Não existe facilidade quando se trata de suspender aquilo que ainda pulsa com força no fundo do corpo, aquilo que volta e meia invade tudo.

 

Mas estou tentando ser justa comigo. Não gentil — justa. Estou tentando me curar não para apagar o que vivi, mas para não entrar de novo na vida com as bordas abertas, vazando o que ainda precisa cicatrizar.

 

E talvez seja isso: uma forma de coragem que não parece coragem enquanto acontece.

 8 de Maio de 2026

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