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ANTES DE DESAPARECER

Meus textos nascem do choque entre o que eu vivi e o que eu inventei para sobreviver. São cicatriz e delírio na mesma linha.

 

Eu registro o mundo desde que me entendo por gente. Enquanto outras pessoas falavam, eu escrevia. Enquanto esqueciam, eu guardava. Sempre fui a das cartas escritas à mão, dos desenhos dobrados dentro de envelopes, das dedicatórias longas demais, das declarações que sangravam verdade.

 

Até que a escrita deixou de ser um gesto e virou carne. Virou hábito. Virou refúgio. Virou quem eu sou.

 

Eu me desfaço quando escrevo. Escorro pelas palavras. Volto para lugares que já não existem, respiro cheiros que o tempo apagou, provo gostos que só a memória conserva. Reencontro pessoas que já foram casa e hoje são ausência. Tudo revive, não porque ainda está aqui, mas porque a escrita ressuscita.

 

Eu escrevo porque tenho medo de esquecer. Porque cada pessoa que passou por mim deixou um traço, um corte, uma luz ou uma ferida aberta. E até as dores, principalmente as dores, merecem existir em algum lugar que não seja só dentro do meu peito rasgado.

 

Minha escrita é arquivo e espelho. É onde eu me reconheço quando o mundo me confunde. Onde eu encontro quem eu fui, encaro quem eu sou e tento, às cegas, imaginar quem eu vou me tornar.

 

Escrever é meu jeito de não desaparecer. De transformar ausência em presença. De dar nome ao que doeu. De eternizar o que foi amor, mesmo quando acabou.

 

E se existe uma verdade final, sem enfeite, sem metáfora bonita, é essa.

 

A escrita não foi só expressão. Foi abrigo. Foi remendo. Foi ar quando eu achei que estava sufocando.

 

A escrita não só me contou a minha história.

 

A escrita me salvou.

 27 de Janeiro de 2026

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