AMOR NÃO É DESTINO
Nunca foi uma batalha entre ficar ou partir.
Foi sempre entre aquilo que eu sabia com lucidez e aquilo que meu corpo insistia em sentir.
Há em mim uma impossibilidade antiga de permanecer onde não caibo. Como um animal que pressente incêndio antes da fumaça, eu sempre soube quando algo já começava a morrer, mesmo enquanto ainda parecia vivo aos olhos dos outros.
Nunca soube me contentar com migalhas de presença, com afetos pela metade, com amores que pediam de mim o sacrifício lento de me diminuir para caber.
Mas partir nunca foi um gesto limpo.
Partir é uma violência íntima.
É arrancar de si mesma um pedaço ainda pulsante e deixá-lo para trás, respirando sozinho em outro lugar.
Existe uma crueldade particular em escolher ir embora de alguém que ainda se ama. Porque junto com a partida vem essa espécie de morte banal e irreversível: deixar de existir no cotidiano de pessoas que, até ontem, ainda habitavam o seu mundo.
E então tudo se rompe sem realmente terminar.
Uma interrupção.
Como fechar um livro no meio de uma frase sabendo que a história ainda tinha carne, ainda tinha febre, ainda tinha futuro inventado demais para morrer tão cedo.
Isso dói de um jeito quase físico. Como se o peito fosse pequeno demais para conter o luto de algo que não chegou sequer a apodrecer por inteiro.
Mas aprendi, talvez tarde, que há dores mais degradantes que a ausência.
Há a dor de ficar onde já não se é escolhida por inteiro.
A dor de negociar aquilo que se deseja até não reconhecer mais a própria fome.
A dor silenciosa e humilhante de permanecer.
Nem sempre fui assim.
Houve um tempo em que fiquei. Em que traí a mim mesma por medo do vazio, por apego à promessa, por covardia diante do fim.
E nada me custou mais caro.
Então eu parto.
Mesmo quando rasga.
Mesmo quando falta ar.
Mesmo quando cada célula implora permanência.
Parto ainda amando.
E talvez esta seja a forma mais adulta — e mais brutal — de amor que aprendi: não confundir sentimento com destino.
10 de Maio de 2026