ALÍVIO INDECENTE
Quando conto o que aconteceu comigo na França, as pessoas me olham com pena. Um olhar que pesa, que tenta me encaixar no lugar da vítima. E eu nunca sei muito bem o que fazer com isso, porque não me reconheço ali.
Às vezes tenho a sensação de que estou narrando a história de outra pessoa. Como se aquilo não tivesse atravessado exatamente o meu corpo. Como se o tempo tivesse passado rápido demais, cicatrizando uma ferida que mal chegou a sangrar. Tudo parece distante, quase irrelevante, como um sonho ruim que se dissolve assim que acordamos.
Tenho a impressão de que nunca amei de verdade aquele homem. Que tudo não passou de um delírio mal explicado, uma tentativa de caber em algo que nunca foi meu. Um episódio estranho, deslocado no tempo, que hoje não me alcança mais.
Por isso, quando dizem “sinto muito” e eu respondo que não precisam sentir, estou sendo honesta. Não há bravura nisso, nem negação — é só verdade.
Era agosto de 2025. Eu estava em Paris e o relacionamento com o francês já escorria por entre meus dedos, se desfazendo em silêncio, quando descobri a maior farsa da minha vida. E o que senti, antes de qualquer outra coisa, foi alívio. Um alívio quase indecente. Finalmente havia um motivo claro para ir embora.
Antes disso, quando pensava em terminar, a culpa me esmagava. Eu insistia em acreditar que ele era uma boa pessoa, que o problema era meu, que eu estava exagerando. Quando descobri que não — que havia algo profundamente errado ali — não hesitei. Fiz as malas com uma pressa limpa, urgente, como quem foge de um incêndio que finalmente conseguiu nomear.
Não vou entrar em detalhes. Foram coisas pesadas, coisas que não se contam com leveza. Mas hoje, curiosamente, elas não doem. E talvez nunca tenham doído como se espera que doam. Foram, mais do que tudo, uma saída. Um escape. Uma porta aberta no meio do caos.
Não consigo resgatar momentos bons, porque os ruins ocupam quase todo o espaço da memória. E não eram apenas ruins — eram muito ruins. Sufocantes. Definitivos.
Então, por favor, não sintam pena de mim. Eu não sou um caso triste, nem uma história quebrada. Eu saí. Eu fui embora. Eu sobrevivi sem saudade.
Depois de toda essa merda, o que ficou não foi dor — foi liberdade.
4 de Fevereiro de 2026