AINDA EXISTE VOCÊ
Pensei que a nossa história tivesse terminado. Que nossos caminhos tinham finalmente se dissolvido um no outro e que nossos olhos nunca mais se encontrariam no mesmo ponto do mundo.
Mas o destino é irônico. Ele gosta de brincar, de embaralhar cartas que a gente jurou já ter descartado.
E então, numa sexta-feira qualquer, nossos olhares se cruzaram outra vez. Depois de quatro meses de silêncio absoluto. Você morando em outro país. Mesmo assim, por algum capricho inexplicável do universo, fomos parar exatamente no mesmo lugar — no mesmo instante — para que nossos braços se lembrassem um do outro.
Eu imaginei esse reencontro tantas vezes.
Quando tudo ainda era recente, imaginava duro, cortante, quase cruel.
Depois imaginei distante, frio, como dois estranhos que já dividiram demais. E, por fim, aceitei que talvez ele nunca acontecesse. Que aquela história tinha realmente acabado ali, no ponto final que demos.
Mas ontem, no meio de uma pista de dança cheia de gente, você estava ali. Na minha frente. Com o mesmo sorriso largo que eu conheço de cor.
Você me puxou para um abraço e, por um instante minúsculo — um desses que cabem dentro de um segundo — eu vi tudo passar. Nossa história inteira atravessou minha cabeça como um filme antigo, rápido e silencioso.
Eu tinha imaginado esse momento de tantas maneiras…
e, ainda assim, ele aconteceu de um jeito que eu jamais saberia inventar.
Nos abraçamos como quem sabe o caminho.
Como dois corpos que ainda guardam memória um do outro.
E ali eu percebi uma coisa difícil de admitir: o amor que eu senti por você talvez ainda exista, só que em outra forma. Mais quieto, mais distante… mas ainda vivo em algum lugar.
Também percebi que aquela ferida ainda está aqui.
Não aberta como antes, mas presente. Como uma cicatriz que às vezes lateja quando a gente menos espera.
As coisas levam tempo — dizem.
Mas ontem entendi que o tempo nem sempre cura tudo. Às vezes ele só ensina a gente a carregar.
Por um minuto eu quis esquecer tudo.
Te puxar para um canto, perguntar da sua vida, dos teus planos, dos lugares onde você tem existido sem mim.
Mas não era a hora. Não era o lugar.
Então eu deixei que o momento fosse exatamente o que precisava ser: breve.
E te ver bem… me fez bem também.
Porque no fundo amar alguém talvez seja isso:
deixar ir, mesmo quando uma parte de você ainda reconhece o caminho de volta.
É observar de longe.
Aplaudir cada voo.
E, quem sabe, aceitar que o destino — esse jogador imprevisível — ainda pode, um dia, nos colocar frente a frente outra vez.
7 de Março de 2026