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A COISA

Passei anos tentando me traduzir.

 

Dar nome às partes. Organizar as ruínas. Explicar meus excessos como quem pede desculpas por existir em volume alto.

 

Mas algumas pessoas passaram por mim e me olharam com uma estranheza bonita. Como quem encontra uma criatura que não entende completamente e, ainda assim, decide ficar olhando.

 

Talvez porque eu nunca tenha sido simples.

 

Eu sou feita de camadas que não conversam entre si.

 

Tenho delicadezas que nasceram em guerra. Humor no meio do desastre. Ternura escondida atrás dos dentes. Carrego o hábito antigo de transformar abandono em silêncio e saudade em partida.

 

Fui menina demais quando precisava ser pedra.

 

Fui pedra demais quando precisava ser salva.

 

E ainda assim sobrevivi.

 

Existe uma versão minha espalhada por aeroportos, quartos vazios, cidades que já não lembro o cheiro, pessoas que me tocaram sem entender o tamanho daquilo que seguravam.

 

Porque eu nunca fui fácil de carregar.

 

Tenho muito dentro.

 

Tenho mortos. Tenho futuros. Tenho incêndios já apagados que ainda aquecem as mãos.

 

Às vezes acho que as pessoas não se apaixonam por mim.

 

Acho que elas encostam e ficam tentando entender do que sou feita.

 

Porque existe algo em mim que escapa.

 

Não por mistério calculado. Não por distância. Mas porque algumas existências não foram feitas para caber numa definição limpa.

 

Sou afeto e retirada.

 

Casa e exílio.

 

Fome e recusa.

 

Tenho a beleza estranha das coisas que sobreviveram ao próprio fim.

 

E talvez seja isso.

 

Talvez eu nunca tenha sido uma mulher para ser resumida.

 

Talvez eu tenha sido sempre aquilo que ele tentou dizer sem conseguir:

 

uma coisa.

 

Não objeto.

 

Não item.

 

Uma coisa no sentido mais antigo da palavra.

 

Algo vivo.

 

Algo difícil de nomear.

 

Algo que, depois de visto, não volta a ser comum.

 27 de Maio de 2026

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